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Menos imagens e mais imaginação

Para além de TV, celular e iPad, precisamos oferece às crianças um tempo para que possam colocar para fora o mundo que nelas pulsa e que quer se revelar.



Todos acreditam na importância da imaginação para a vida humana. Podem até não a nomear assim e chamá-la de criatividade. Que pais não ficam orgulhosos e contentes ao afirmar: “meu filho é tão criativo. Ele inventa cada coisa!” Somos seres criadores e não apenas criaturas. Não estamos na Terra para reproduzir um modo de vida que encontramos pronto quando nascemos, mas para o reconstruirmos e o realizarmos de uma forma diferente juntos.


Podemos dizer que o co-criamos, pois não estamos sozinhos e precisamos uns dos outros para crescer e Ser na Terra. E como fazemos isso? A partir de imagens que existem dentro de nós. Delas nascem as ideias e os ideais.

A imagem é a base, o solo fértil para criarmos verdadeiramente a partir de nós mesmos. Do contrário, copiamos e seguimos fazendo sem consciência ou propriedade (o que dizer então da responsabilidade) sobre nossa ação. O mundo das imagens internas é o ambiente necessário para que a imaginação floresça no mundo. E esse solo deve ser preparado com muito cuidado e carinho desde a infância.


Mas, afinal, o que é uma imagem? Uma gravura em um livro para desenhar, um papel desenhado a mão, um filme, uma estampa na camisa ou até mesmo um livro contém imagens. Em geral, estão sobrecarregados delas. Mas são imagens prontas, definidas, criadas ou reproduzidas por outras pessoas e sobre as quais temos pouco possibilidade de recriar em cima. Quem nunca se lembra de ter visto algum filme ou desenho que lhe causou tamanha impressão que parece tê- lo vestido como uma roupa que não sai mais? Uma imagem que sempre lhe aparece como uma assombração... Sempre que penso em Cinderela, me vem a princesa criada pela Disney. É algo inevitável. Uma reprodução automática, instantânea.


Imaginação. Se desmembrarmos a palavra encontramos imagem e ação. Uma imagem em ação, que está ativa e em movimento. Mas não fora de nós. Ela se move a partir de dentro.

Por isso, na escola, costumamos dar brinquedos simples, que aparentemente estão inacabados para as crianças, principalmente as bem pequenas. São tocos de madeira, bonecas sem detalhes no rosto, potes, caixotes, cordas, elementos que lhes dão espaço para elaborar suas imagens internas. São materiais “neutros”, abertos para tudo que pode ser criado. Com caixotes podemos fazer cabanas, caminhas para os bebês, transformar em carro, em cocheira para os cavalos. Na nossa sala, as crianças adoram brincar de cozinhar. Caixotes são mesas, fogão, forno...e de todos os jeitos e composições possíveis. Cada dia nasce uma cozinha diferente... E em cada panela há uma comida única. Talvez nunca saberemos o que foi imaginado, mas temos o imenso prazer de provar quando nos é ofertado.


Realizar essa atividade própria tão importante de criar é dar sentido ao mundo ao seu redor. A imagem que vem de um impulso pessoal é singular e por isso encanta tanto. “Nossa, eu nunca teria pensado em fazer assim!” Que bom! Certamente você poderia pensar inúmeras outras formas de acessar o arcabouço interior de imagens que vive em você, mas que precisa ser ativado continuamente. E que pode sempre ser revisitado e transformado, como a vida.


Quando dizemos que tivemos um “insight” queremos dizer que vimos com os olhos internos da alma. Nele as infinitas possibilidades se manifestam. Na escola, quando preparamos uma época, temos um tema como pano de fundo e sobre ele fazemos ressaltar alguns elementos que consideramos importantes de forma verdadeira e singela para as crianças os vivenciarem a partir de si.


Por exemplo, a nossa roda de páscoa traz uma música da lagarta que faz seu casulo para dormir um tempo e depois...surpresa...nasce uma borboleta. Que beleza! Diante da criança cantamos e fazemos os gestos para elas sentirem o movimento dessa criatura e imaginar a sua borboleta. Como poderia ser? Se tenho diante de mim 11 crianças, terei pelos menos 12 borboletas pois, certamente cada uma delas não será a mesma que a minha. E cada dia ela pode ser uma nova borboleta. Agora, pense numa borboleta. Como ela é? Qual a sua cor? Seu tamanho? Sua forma? Onde ela voa? Que flor ela gosta de visitar? Feche os olhos e procure ver.


As imagens vivem dormindo em nós e despertam na hora em que as buscamos, como o príncipe que busca a bela adormecida. Não podemos acessá-las se não tivermos vontade e trabalharmos para trazê-la à tona.

As crianças também precisam se esforçar para criar. Por isso que nos preocupamos com tudo o que lhe chega pronto. É importante que tenhamos claro que os meios eletrônicos trazem imagens de forma mais impositiva e agressiva para as crianças, pois contêm sons e movimentos, isto é, são animados. Quem é humano sempre se interessa pelo que é animado, tem a ver com nossa alma! Mas por esses instrumentos que criamos elas nos chegam sem pedir licença. De forma invasiva tomam conta de nós, dos nossos gestos, da nossa fala e do nosso pensamento. Quem nunca ouviu a música “Livre estou, livre estou...” do desenho da Frozen? Ela fica em nós assim, imutável, estanque. E o que é parado na vida? Uma pedra talvez? Mas, o que tem de vida nela?


Reconheço a dificuldade de não deixarmos as crianças expostas aos meios eletrônicos, seja TV, celular, iPad, etc. São recursos aos quais muitas vezes muitos pais e mães costumam apelar em momentos de desespero e cansaço ou para distrair as crianças.


Mas é importante lembrar também que as crianças são completamente abertas e receptivas e ainda não desenvolveram seu filtro para discernir o que é melhor para elas, o que é adequado ou não. A enxurrada de informações que recebem quando se defrontam com estes meios exigirá um esforço para digerir e dar um lugar a isso dentro deles. O efeito pode ser pior do que desejamos: crianças mais agitadas, cansadas e com imaginação recebendo fortes imposições limitadoras.


Os adultos precisam saber que alimento as crianças estão recebendo e com o qual irão crescer. A consciência pertence ao mundo dos adultos e é com ela que podemos nos preparar para dar as melhores condições para as que as crianças possam se desenvolver de forma sadia e digna.

Uma ideia que surgiu em minha casa foi de colocar a televisão para dormir, cobrindo-a com um lindo pano. Dessa forma, ela não ficava tão convidativa e foi retirada do imaginário da casa. Diante dela coloquei um grande quadro pintado por meus pais. A televisão deixou de ser uma presença marcante em nossa sala. É quase como se não existisse. E para acessá-la era preciso muita consciência e vontade, pois já não bastava mais ligar um botão...


Vivemos num mundo direcionado, repleto de atividades dirigidas. Como as crianças podem desenvolver sua imaginação se não podem exercitá-la? Como podemos oferecer-lhes ambientes criativos como a aquarela, para elas poderem criar em cima, por si mesmas? Será que a imaginação precisa ser estimulada? Devemos cuidar com os estímulos e incentivos num mundo que nos traz um chamariz de incitações o tempo todo.


Fazer nada...ser livre.... Tempo para exercitar a liberdade criativa. Isso é fundamental para que a criança consiga ouvir e ver o que existe dentro de si. Precisamos cada vez mais oferecer este tempo. Deixá-la livre para colocar para fora o mundo que nela pulsa e quer se revelar.

Conviver com a natureza é o maior presente, pois ela nos dá ricos elementos imaginativos que se transformam constantemente, mudam de cor, sons, sabores e assim, nos convidam a experimentar o novo e renovar nossas percepções. As percepções são portas abertas para o mundo e eles fazem uma colheita de elementos para as criações da imaginação.


Para isso também é preciso silêncio. Silêncio para ouvir. Para ser ouvido. Isso é um grande desafio. Como estar presente sem ser através da fala? O que falar? Como se manter no essencial? São perguntas com as quais devemos conviver para que cada um encontre sua verdade.


Explicações também são definições, assim como as imagens externas prontas estampadas nas mochilas, cadernos, meias, camisetas, colares, pulseiras e onde mais a indústria do consumo consiga reproduzir o seu interesse. Quando explicamos, tiramos a criança do mundo imaginativo, que é muito mais próximo do sonho do que a concreta realidade.

Então, não explicar com conceitos e palavras descritivas, mas povoar sua imaginação com imagens verdadeiras é outro caminho para educar preservando a força da imagem.

Ao arrumarmos a sala cantando sobre as abelhas que trabalham juntas na colmeia, por exemplo, trazemos uma verdade que ressoa na criança e dentro dela encontra espaço para ela criar junto. Por mais que as perguntas pareçam possibilidade para ela se colocar e elaborar, elas normalmente exigem da criança um esforço de pensamento que ela ainda não tem disponível.


Podemos oferecer às crianças músicas mais suaves com simplicidade e beleza e tons que nos elevam. Trazer gestos - a qualidade de como fazemos as coisas e histórias (lembrando que cada fase tem um conteúdo e uma forma de história adequada - mais sobre isso nesse artigo) no lugar de explicações -, evitar meios eletrônicos e imagens estampadas.


Sabemos ser praticamente impossível eliminá-los completamente, mas buscar reduzir ao máximo já é um grande passo. Selecionar e trazer aquelas imagens que trazem o bom, o belo e o verdadeiro, que estejam relacionadas com a harmonia e a singeleza da infância. Meus filhos vão para escola vestidos de “arco-íris”. Levam roupas coloridas sem nada pintado nelas, apenas uma cor como pano de fundo. Assim, eles se entretêm com o mundo em volta, sem se preocupar com o que está impresso no que estão vestindo.


Esses são alguns caminhos que encontrei, espero que vocês descubram muito mais na sua busca de ajudar no caminho da educação das crianças pela imagem.

 
 
 

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